sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Primeiras Estórias - Guimarães Rosa - Roteiro de Estudo elaborado por Mara Rute


Primeiras palavras:
Esse é o último livro que trabalharemos juntos e sei que vocês estão com muita informação armazenada e tantas histórias para lembrar, mas devo dizer que estudá-lo por último não o torna menos importante. Afinal, vocês estão lendo um dos mais importantes escritores do modernismo brasileiro conhecido pelo mundo e quase indicado para o Nobel de literatura. Espero que Guimarães Rosa possa ajudá-los nesse grande sertão do vestibular que vocês enfrentam.
Importante: os resumos aqui propostos foram retirados de: http://www.cpv.com.br/cpv_vestibulandos/dicas/livros/litobr4101.pdf

Mara Rute Lima

 Sobre o autor...
Segundo o próprio Guimarães; “ nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura”.
É importante lembrar também sua genialidade no estudo das línguas começou a aprender a primeira sozinho aos 7 anos e depois dominou muito bem a sua além do  alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto e  um pouco de russo; ainda  aventurava-se pelo sueco, holandês, latim e grego. Esse conhecimento de outras línguas e do funcionamento de suas gramáticas foi um dos instrumentos que garantiu ao Guimarães um grande conhecimento de nosso próprio idioma.
Formou-se em medicina e exerceu pouco a profissão trocando-a pela carreira de diplomacia quando foi considerado um herói pelos judeus por  proteger e facilitar a fuga de  perseguidos pelo Nazismo. Por isso foi homenageado em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros. O seu nome e de sua esposa foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.
Três dias antes da morte o autor decidiu, depois de quatro anos de adiamento, assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Os quatro anos de adiamento eram reflexo do medo que sentia da emoção que o momento lhe causaria. Ainda que risse do pressentimento, afirmou no discurso de posse: "...a gente morre é para provar que viveu."
O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada.  Parece que pressentiu que algo de mal lhe aconteceria. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro de 1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana.
“Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a publicar aos 38 anos. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo”.

Sobre o livro:
Em 1962, lançou a obra que a UESC escolheu com 21 contos pequenos. Nos textos, são visíveis as pesquisas formais, uma extrema delicadeza de construção que para alguns chega a ser mesmo poesia em prosa.
Quando você estiver lendo observe as inovações de linguagem, a presença de falares populares e regionais misturados a erudição. Perceba também a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

No volume, aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica, a fantástica, a autobiográfica, a anedótica, a satírica, vazadas em diferentes tons: o cômico, o trágico, o patético, o lírico, o sarcástico, o erudito, o popular.
As estórias captam episódios aparentemente banais. Mas revelam um olhar singular, mágico, milagroso para as  coisas e pessoas simples o que torna eventos aparentemente banais em marcantes e simbólicos. Tem não a função do regionalismo de 30, pelo contrário apesar do ambiente a obra trabalha a existência humana e não se preocupa  com aspectos da  cor local – marca do modernismo de 45.
Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo.

As personagens embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, elas se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço.

A relação com a morte e com o desejo de imortalidade está presente em toda a obra de Guimarães Rosa, mas talvez com mais intensidade em "Primeiras Estórias".

Em cada um dos contos deste livro o narrador configura sua experiência de forma diferente, atravessando estágios emocionais distintos, conforme o ponto do percurso em que se encontra. Tanto em As Margens da Alegria, quanto em Os Cimos, contos extremos do livro, ele se identifica profundamente com o protagonista, como se ele espelhasse sua própria trajetória, sua infância, como se assim universalizasse, de certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber o que há de comum na infância de cada menino, nessas delicadas passagens, em seus estados de alma, nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.


Veja isso...
PRIMEIRAS ESTÓRIAS:
• REGIONALISMO UNIVERSALISTA:
Linguagem regionalista — temática universalista;
• TEMÁTICA:
1) A loucura é tema constante em contos como PIRLIMPSIQUICE; NADA E A NOSSA CONDIÇÃO, SÔROCO, SUA MÃE, SUA FILHA, A TERCEIRA MARGEM DO RIO;DARANDINA.

2) O amor é tema constante em contos como LUAS-DE-MEL; NENHUM, NENHUMA; SUBSTÂNCIA.

3) O conto que discute claramente a oposição entre essência e aparência é o décimo-primeiro do livro e não por acaso O título é O ESPELHO.

4) Vários dos contos desse livro têm crianças como personagem central. São eles: AS MARGENS DA ALEGRIA; OS CIMOS; A MENINA DE LÁ; A PARTIDA DO AUDAZ NAVEGANTE; NENHUM, NENHUMA; PIRLIMPSIQUICE.

5) O ambiente místico e mágico é característico em obras como A MENINA DE LÁ, A TERCEIRA MARGEM DO RIO e UM MOÇO MUITO BRANCO.

6) O sentido de circularidade é marcante nessa obra, pois o conto MARGENS DA ALEGRIA e o conto OS CIMOS possuem o mesmo personagem:  um menino aprendiz que começa a sua travessia no primeiro conto e só a conclui no último.

7) Em contos como A MENINA DE LÁ e A PARTIDA DO AUDAZ NAVEGANTE, os personagens NHINHINHA e BREJEIRINHA têm nomes colocados no diminutivo. O diminutivo tem a função de indicar afetividade, docilidade.

8) NHINHINHA e BREJEIRINHA têm afinidades entre si e com o próprio autor porque gostam de inventar palavras e também criar estórias em que usam a imaginação e o insólito.

9) Alguns contos estão mais para casos (anedotas) do que contos. Neles o autor discute a macheza e o heroísmo. É o caso, por exemplo, de OS IRMÃOS DAGOBÉ e TARANTAO, MEU PATRÃO.

10) Narradores indignados, que abertamente acusam o leitor de não ter a sensibilidade necessária para entender suas experiências e a complexidade dos personagens em questão estão em O ESPELHO e A BENFAZEJA.

11) O KARMA indica que as pessoas colhem sempre o que semeiam. Afirma que algumas coisas são imutáveis, por isso o mal precisa ser extirpado. O conto que tem o título que melhor traduz essa idéia é FATALIDADE. O conto que resume a idéia de uma loucura criativa é PIRLIMPSIQUICE. E o que discute o sentido erudito e o coloquial de uma palavra é FAMIGERADO.

12) O branco, na literatura roseana, está intimamente ligado à idéia de pureza. Isso pode ser confirmado no conto Um moço muito branco, em que o personagem parece um anjo que desceu no pátio da fazenda de Hilário Cordeiro e em NENHUM NENHUMA conto em que a moça parece estar vestindo a roupa de uma madrinha de casamento ou em SUBSTÂNCIA, em que o seo Sionésio descobre sua paixão por Maria Exita e a depuração do povilho acaba sendo relacionada, por analogia, à depuração do sentimento. Esse conto termina em infindáveis referências à cor branca.

13) Em O CAVALO QUE BEBIA CERVEJA, Reivalino Belarmino herda o cão (Mussulino), o cavalo (Alazão Canela Clara) e a fazenda de seu Giovânio. Acaba, por assim dizer, descobrindo a sua sina. Em Seqüência, o jovem filho de seo Rigério, perseguindo a vaca Querençosa, também descobre a sua sina, pois a perseguição o leva conhecer a filha do meio do Major Quitério. Em A TERCEIRA MARGEM DO RIO, o filho primogênito descobre a sua sina a partir do momento em que se tornou extremamente parecido com o pai. O momento epifânico da obra é quando vai à beira do rio e pede para trocar de lugar com ele. Quando o pai aceita, descobre que jamais seria capaz de cumprir a sua sina por isso a seguir vem a náusea, a febre, o delírio.
14) Todos os personagens de Guimarães Rosa estão fazendo uma travessia em busca do auto-conhecimento Durante essa travessia, o personagem está cumprindo sua sina e só terá plena consciência do que ela significa quando chega o seu momento de epifania. Apesar de as obras estarem centradas no interior de Minas Gerais e, por isso, trazerem uma linguagem regionalista, a temática em discussão é sempre universalista.

15) Liojorge, um lagalhé, matou o valentão Damastor Dagobé, em OS IRMÃOS DAGOBÉ, da mesma forma que Zé Centeralfe matou o valentão Herculinão Socó, em Fatalidade Mostraram o seu heroísmo e macheza ao tomar tal atitude, mas não mataram por vontade ou com alegria. Mataram porque o mal presente nessas pessoas não lhes ofereceu alternativa.

16) Um dos contos mais originais do livro, A Benfazeja, conta a história de Mula-Marmela, que matou o marido, o valentão Mumbungo a quem amava e também ao filho dele, o cego Retrupé. No entanto, a sociedade a vê como uma assassina, enquanto o narrador tenta mostrar que ela é um anjo incompreendido pela sociedade. Quando ela vai embora, leva um cachorro morto consigo talvez para livrar a sociedade de sua pestilência ou talvez para ser o seu único companheiro na hora da morte.


"As margens da alegria".

O conto “As Margens da Alegria” é um olhar sobre a construção de Brasília. O personagem principal é um garoto denominado apenas de “O Menino” que realiza uma viagem inédita.
1. Assinale a alternativa que  contenha comprovação sobre a afirmação acima:
a) “era uma viagem inventada no feliz” “
b) “confortavelzinho, com um jeito de folha a cair”
c) “e as coisas vinham docemente de repente”.
d) “a grande cidade começava a fazer-se, num semi-ermo”,
e) “em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados”.
2. Alguns estudiosos sugerem “o Menino” como uma metáfora do Brasil. Entendendo dessa maneira como você pode explicar a visão do peru?
Alguns autores modernos fizeram uso de personagens para explicar a nossa nação, a exemplo Mário de Andrade com Macunaíma. Aqui, Guimarães em propor um menino encantado com a cidade grande que estava sendo construída – Brasília, e  que vê a morte pela primeira vez, nos ensina, através dele que é preciso perder algumas coisas como  “a mata, as mais negras árvores”, para que novas luzes caíssem sobre a vida.
3. Caetano Veloso na canção “Tropicália” também faz uma série de sugestões sobre a  criação de Brasília. Qual imagem retirada da canção tem o mesmo sentido da apresenta no texto de Guimarães Rosa?
a) Eu organizo o movimento /Eu oriento o carnaval / Eu inauguro o monumento / No planalto central do país
b) Viva a bossa, sa, as / Viva a palhoça, ça, ça, ça, ça
c) O monumento é de papel, crepom e prata / Os olhos verdes da mulata / A cabeleira esconde atrás da verde mata / O luar do sertão
d) O monumento não tem porta / A entrada é uma rua antiga, / Estreita e torta / E no joelho uma criança sorridente,/ Feia e morta, / Estende a mão.
e) No pátio interno há uma piscina / Com água azul de Amaralina / Coqueiro, brisa e fala nordestina / E faróis
4. Leia os trechos abaixo:
Trecho I
“Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão - brusco, rijo, - se proclamara. Grugrulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto - o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O Menino riu, com todo o coração”.
Trecho II
Pensava no peru, quando voltavam. Só um pouco, para não gastar fora de hora o quente daquela lembrança, do mais importante, que estava guardado para ele, no terreirinho das árvores bravas. Só pudera tê-lo um instante, ligeiro, grande, demoroso. Haveria um, assim, em cada casa, e de pessoa?
Trecho III
... Mal comeu dos doces, a marmelada, da terra, que se cortava bonita, o perfume em açúcar e carne de flor. Saiu, sôfrego de o rever.
Não viu: imediatamente. A mata é que era tão feia de altura. E - onde? Só umas penas, restos, no chão. - "Ué, se matou. Amanhã não é o dia-de-anos do doutor?" Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podiam? Por que tão de repente? Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru - aquele. O peru - seu desaparecer no espaço. Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama de morte.
Trecho IV
Movia-o um ódio. Pegava de bicar, feroz, aquela outra cabeça. O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo.
Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.
4.  Tomando como base toda a história, mas  respeito a ordem dos  textos apresentados justifique o título “ as  margens da  alegria.”
O menino tem a oportunidade de encantar-se com o peru e imaginá-lo como parte da cidade, trazendo alegria em cada casa. Quando descobre que pelo contrário, o peru foi morto, e sua morte era algo normal, para comemorações o menino entristecesse-se. Além dessa decepção, vê outro peru comendo a cabeça do morto. O menino teve então contato com a vida cruel. No entanto, a intenção do autor é  revelar essa parte triste para o menino é mostrar que a morte e a tristeza estão nas margens da alegria.

As Margens da Alegria
A principal personagem é o Menino e, assim como ele, as outras personagens são apenas identificadas pelo grau de parentesco. O protagonista vai se deslumbrando com as novidades do local onde se ergueria uma grande cidade — Brasília. De todas as visões, a que mais o encantou foi a do peru, no centro do terreiro. Logo em seguida, o Menino é chamado para um passeio. Ao retornar, só consegue pensar no animal, “só um pouco, para não gastar fora de hora o quente daquela lembrança.” O animal é morto. A criança, quando sai para procurar o peru, só encontra restos pelo chão e se abala, pois “tudo perdia a eternidade(...)” O menino é levado para outro passeio, para o local onde estava sendo construído um grande lago. Ao retornar, encontra, no terreiro, outro peru que bicava a cabeça do primeiro peru com ferocidade. Chega a noite e a criança vê um vaga-lume. O menino que descobrira a dor e a morte redescobre a alegria.

Trechos Escolhidos:
1. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho.
2. A Mãe e o Pai vinham trazê-lo ao aeroporto. A Tia e o Tio tomavam conta dele, justinhamente. Sorria-se, saudava-se, todos se ouviam e falavam.
3. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de segurança virava forte afago, de proteção, e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao mais. Assim um crescer e desconter-se - certo como o ato de respirar - o de fugir para o espaço em branco. O Menino.
4. O Menino via, vislumbrava. Respirava muito. Ele queria poder ver ainda mais vivido - as novas tantas coisas - o que para os seus olhos se pronunciava.
5. Iam de jipe, iam aonde ia ser um sítio do Ipê. O Menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa.
6. Esta grande cidade ia ser a mais levantada do mundo.
7. Ali fabricava-se o grande chão do aeroporto - transitavam no extenso as compressoras, caçambas, cilindros, o carneiro socando com seus dentes de pilões, as betumadoras. E como haviam cortado lá o mato? - a Tia perguntou. Mostraram-lhe a derrubadora, que havia também: com a frente uma lamina espessa, feito limpa-trilhos, a espécie de machado.
8. Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; isto era: já o vir da noite.... alguma força, nele, trabalhava por arraigar raízes, aumentar-lhe alma.
9. Movia-o um ódio. Pegava de bicar, feroz, aquela outra cabeça. O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo. Trevava. Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.
Questão UESC 2010
Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão — brusco, rijo, — se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços;  e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto — o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio.
ROSA, João Guimarães. As margens da alegria. Primeiras estórias. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968. p. 4.
Considere o fragmento no contexto do conto e teça um comentário sobre as intervenções do adulto na relação da criança com os momentos de desvendamento de realidades novas.

"Famigerado"

Um médico estava em casa quando chegam quatro cavaleiros, dos quais um “não tinha cara de ser muito amigo”. Apesar do medo, crente que se tratava de um jagunço, o médico pergunta qual a razão da visita. O sujeito se identifica e confirma a suspeita do médico. Numa conversa lenta, entrecortada, o homem explica que desejava saber o significado da palavra “famigerado”, que um funcionário do Governo lhe dissera. Como ninguém soubera explicar-lhe, acreditava que o doutor soubesse fazê-lo. O médico, com ares de culto, diz que o significado seria próximo de “notável” ou “célebre”. O famigerado pede maiores explicações e o médico continua a acrescentar sentidos positivos para a palavra. O jagunço, satisfeito, dispensa os homens que trouxera de testemunhas e parte feliz. O final é um anti-clímax, já que tudo termina bem depois do clima de suspense de toda a narrativa. O médico não mentiu: ele apresentou uma das interpretações possíveis para a palavra famigerado, mas não citou aquela que é a mais comum: bandido.

 (UEL) A questão a seguir refere-se à passagem transcrita do conto “Famigerado” (Primeiras Estórias, 1962), de João Guimarães Rosa (1908-1967)
[...] Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz- megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
- “Saiba vosmecê que saí ind’hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro...”
Se sério, se era. Transiu-se-me.
“Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem o legítimo – o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
Famigerado?
“Sim senhor...” – e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo – apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. – Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
“Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho...”
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”, “notável”...
“Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?”
Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
“Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”
Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito...
Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?”
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!...
“Ah, bem!...” – soltou, exultante.
(ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 14. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 15-16.)
De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o adjetivo “famigerado” significa “que tem fama; muito notável; célebre; famoso; famígero”. Acontece que, tendo sido utilizado inúmeras vezes associado à palavra malfeitor, “famigerado malfeitor”, acabou por adquirir o significado negativo do substantivo ao qual esteve reiteradamente ligado. Daí resultou uma segunda acepção: “mal afamado, perverso”. O segundo significado é resultante de desvio em relação ao significado primeiro.
Com base nessa elucidação, na passagem do conto rosiano transcrita e no conto como um todo, considere as afirmativas a seguir.
I. Damazio, o jagunço, procura o médico no arraial para esclarecimento a respeito da palavra “famigerado” porque acha que foi ofendido pelo moço do Governo que assim o denominou.
II. A resposta oferecida pelo médico à questão levantada pelo jagunço não foi motivada pelo medo de possível violência por parte do jagunço, mas antes pelo seu conhecimento da língua portuguesa restrito aos registros da norma culta.
III. Damazio só foi procurar pelo médico no arraial porque no sertão, embora existam dicionários disponíveis, “o legítimo – o livro que aprende as palavras”, não há quem possa resolver questões desta espécie.
IV. Quando questionado pelo jagunço, o médico, para evitar maiores problemas, oferece-lhe o primeiro significado da palavra, engambelando, desta forma, o homem do sertão e evitando possível violência.
1. Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.  b) I e IV.   c) III e IV.    d) I, II e III     e) II, III e IV.

2. As palavras de Damázio são registradas de maneira condizente com sua origem sertaneja. Assim, lê-se, no texto, entre muitas outras expressões similares, “pra mor de lhe preguntar a pregunta”. Tal fato revela:
a) Preconceito do autor com relação ao sertanejo iletrado, marginalizando-o através da fiel transcrição de sua fala em desacordo com a norma lingüística vigente e incompreensível para o homem culto da cidade.
b) Descaso do autor com o registro da fala do homem do sertão, somando-se, desta forma, com a política brasileira dominante em 1962, quando seu livro foi escrito, que pouco se ateve à problemática destes seres marginalizados.
c) Consciência política do autor que, através do registro da fala arcaica de seus sertanejos, objetiva trazer à tona problemas concernentes à marginalidade e à subserviência experimentadas por esses homens incapazes de ostentar alguma forma de poder.
d) Vínculo da obra rosiana com obras regionalistas brasileiras que a antecederam nas quais há o registro concomitante de duas falas muito diferentes entre si, a do sertanejo e a do homem da cidade, como é o caso, por exemplo, de São Bernardo, de Graciliano Ramos.
e) Conhecimento, por parte do autor, da existência de um ser outro, ainda que também brasileiro, distinto daquele que se faz presente na cidade, sendo que sua especificidade registra-se de diferentes maneiras, inclusive na maneira como fala.

3. Assinale a alternativa em que os termos substituem, respectivamente, os neologismos “se famanasse” e “verivérbio”, sem alterar o sentido das frases no texto transcrito.

a) Ficasse contente; a visão clara da verdade.    b) Se sentisse enaltecido; a etimologia da palavra.
 c) Estivesse saciado; a opinião sincera do narrador.  d) Ficasse famoso; a necessidade da palavra.
e) Agisse como valentão; o sentido preciso da palavra.
Questão UESC 2011
— “Saiba vosmecê que saí ind`hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe
perguntar a pergunta, pelo claro...”
Se sério, se era. Transiu-se-me.
— “Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem o legítimo — o livro que aprende as palavras...
É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?”
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
—  Famigerado?
— “Sim senhor...” — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 395.
Contextualizando o fragmento na obra, explique como a limitação vocabular poderia gerar uma situação de conflito e como isso é resolvido na narrativa.

"Sorôco, sua mãe, sua filha"
Um trem com um vagão especial espera na estação para levar a mãe e a filha de Sorôco para o hospício em Barbacena. Com sua melhor roupa, o homem traz as duas pelo braço. Uma multidão vem acompanhar esse triste espetáculo, mas todos tentam respeitar a dor de Sorôco. Inusitadamente, ambas começam a cantar uma canção que ninguém compreendia. Sorôco nem tem coragem de olhar para o trem quando este parte. De repente, tomado pela dor, passa a cantar a mesma canção de suas familiares. Toda a comunidade ali principia a cantar também e a acompanhar Sorôco.

Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de Sorôco, para conduzi-las ao manicômio de Barbacena. Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco, elas começam surpreendentemente a cantar.
Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma canção, e os amigos da cidadezinha cantam junto.
1. Que sentido tem a canção na construção da estória?
A música aparece, no final do conto de maneira não programada pelas pessoas que acompanhavam a despedida de Sorôco, e, porque sentiam dó dele, entoaram aquela canção meio sem sentido. Cantaram animados e acompanharam a personagem de maneira tal que a ação ficou na memória como evento sem comparação. Usando essa imagem Guimarães Rosa consegue transmitir  para o leitor uma ideia de solidariedade e união de desconhecidos.

 Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras ... Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
2. Quais  são as semelhanças entre essas mulheres?
Guimarães Rosa dedica a maior parte da descrição do texto para Sorôco, logo pouco sabemos dessas duas mulheres, mas é possível vê-las vestidas de  forma diferentes - enquanto a mãe está toda de preto, a  filha vestia-se exageradamente  com panos e até papéis. Segundo o narrador tinha em comum a maluquice.

Trechos  escolhidos:
1. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre.
2. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
3. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
4. Alguém deu aviso: – "Eles vêm!... " Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.
5.  O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco agüentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.

6. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre. Sorôco nâo esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo – o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: – "O mundo esta dessa forma... " Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco.

7. A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.

"A menina e lá"
O narrador em primeira pessoa conta o seu contato com uma menina, Nhinhinha, de cerca de 4 anos e paranormal, que contava estórias vagas e absurdas. A família não se incomodava com a menina e esta se dava muito bem com o narrador. Entre outros assuntos, ela dizia que iria encontrar em breve os parentes dela que já haviam morrido. Pequenos “milagres” ocorrem. Por exemplo, um sapo obedece a menina; a mãe dela fica doente, a menina a beija e aquela fica curada. O narrador não deixa clara sua posição: eram milagres ou coincidências? Um dia, a tia da menina, Tiântonia, repreende Nhinhinha, pois esta descreve como queria seu caixão. Pouco depois, a garota morre.

Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. — "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." — dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" — e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: — "Tatu não vê a lua..." — ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.
1. Com base no trecho acima e na totalidade da estória comente sobre  a singularidade de Nhinhinha e sobre seu olhar para as coisas. Para isso tome como ponto de partida a sua relação familiar.
Ninhinha era uma menina que tinha um olhar lúdico-fantástico para o mundo criava novas formas de falar e conseguia observar particularidades que seus familiares não percebiam como dizer que o ar  tinha cheiro de lembranças. Com o tempo percebeu-se que tudo que a menina desejava se realizava. Nesse momento temos um conflitos entre os desejos de Nininha e  os desejos materiais de  seus pais. Esses queriam que ela desejasse chuva, cura de doenças, enquanto ela queria o arco-íris ou o mundo de  lá.
Conversávamos, agora. Ela apreciava o casacão da noite. — "Cheiinhas!" — olhava as estrelas, deléveis, sobrehumanas. Chamava-as de "estrelinhas pia-pia". Repetia: — "Tudo nascendo!" — essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança. — "A gente não vê quando o vento se acaba..." Estava no quintal, vestidinha de amarelo. O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - "Alturas de urubuir..." Não, dissera só: - "... altura de urubu não ir." O dedinho chegava quase no céu. Lembrou-se de: — "Jabuticaba de vem-mever..." Suspirava, depois: — "Eu quero ir para lá." — Aonde? – "Não sei" Aí, observou: — "O passarinho desapareceu de cantar..." De fato, o passarinho tinha estado cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora, ele se interrompera. Eu disse: — "A Avezinha." De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de "Senhora Vizinha..." E tinha respostas mais longas: — "Eeu? Tou fazendo saudade." Outra hora falava-se de parentes já mortos, ela riu: — "Vou visitar eles..." Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: - "Ele te xurugou?" Nunca mais vi Nhinhinha.
3.  Quando Nhinhinha, personagem de Guimarães Rosa pede um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites brilhantes tem a mesma simbologia da estrela desejada por Estela personagem do escritor Aleiton Fonseca?  Justifique.
 São personagens que tem um olhar incomum para as coisas, não são entendidas claramente por seus familiares e morrem muito cedo. Ninhinha,  deseja  o  seu caixão e anuncia a sua morte ao passo que a estrela desejada  por Estela era um presente  para seu irmão e não está atrelada à sua . Importa ressaltar que as meninas revelam valores simulares e distintas de nossa sociedade capital.
4. O trecho em negrito revela que o “lá” pode ser entendido como que lugar a que pertence a menina?
O texto produz uma personagem fantástica e não revela totalmente sua personalidade a ponto de poder caracterizá-la como anjo ou pertencente ao céu. No entanto, é possível dizer que o lá que nem mesmo Nininha sabe é um mundo menos real, mais fantástico.

Trechos  Escolhidos:
1. Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.

2. Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. — "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." — dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" — e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: — "Tatu não vê a lua..." — ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.

3. Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. — "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" — perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: — "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?

4. Nada a intimidava... Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo.

5. Sei, porém, que foi por aí que ela começou a fazer milagres. ... Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita. Assim, quando a Mãe adoeceu de dores, que eram de nenhum remédio, não houve fazer com que Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu — "Deixa... Deixa..." — não a podiam despersuadir. Mas veio vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou , quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos.

V - "Os irmão Dagobé"
O irmão mais velho, Damastor, havia sido morto. Esta era uma família temida na região, devido à prática de usar a violência como solução para seus problemas. O assassino, Liojorge, era um homem pacífico da região, que o matara em legítima defesa. Todos esperavam uma vingança por parte dos irmãos Dagobé. Mas eles se preocupavam mais com o velório do irmão, recebendo com cortesia quem ia lá render homenagens ao morto. Liojorge oferece-se para carregar o caixão, para provar que não matara por motivo fútil. Os irmãos aceitam. Todos estão na expectativa de que, após o enterro, a vingança seria consumada. Mas, para surpresa de todos, eles dizem para Liojorge se recolher porque eles partiriam para a cidade grande.


ENORME DESGRAÇA. ESTAVA-SE NO VELÓRIO DE DAMASTOR Dagobé, o mais velho dos quatro irmãos, absolutamente facínoras. A casa não era pequena; mas nela mal cabiam os que vinham fazer quarto. Todos preferiam ficar perto do defunto, todos temiam mais ou menos os três vivos.
.................
Depois do que muito sucedeu, porém, espantavam-se de que os irmãos não tivessem obrado a vingança. Em vez, apressaram-se de armar velório e enterro. E era mesmo estranho.
1. Comente sobre o trecho em negrito relacionando-o com toda narrativa.
Os irmãos Dagobé eram conhecidos por suas maldades e vinganças em todo lugar por onde passavam assim, quando o irmão mais velho morre, esperava-se por parte dos mais novos uma ação de vingança sangrenta,  o que não ocorre. Tal fato deixa antever que os irmãos eram apenas seguidores do irmão mais velho já que esse era o chefe da família.

Só disse, subitamente ouviu -se: - "Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado ... »
Disse isso, baixo e mau-som. Mas se virou para os presentes.
Seus dois outros manos, também. A todos, agradeciam. Se não é que não sorriam, apressurados. Sacudiam dos pés a lama, limpavam as caras do respingado. Doricão, já fugaz, disse, completou: - "A gente, vamos' embora, morar em cidade grande ... " O enterro estava acabado. E outra chuva começava.
2. De que  forma o trecho acima constrói um anticlímax na narrativa?
 A construção da narrativa nos levaria a mais uma história de vingança familiar, mas o que acontece é o perdão ao assassino e a saída dos irmãos da  cidade. Isso além de surpreender o leitor da história também revela que os irmãos não tinham a mesma índole do irmão mais velho.

Trechos escolhidos:
1. Demos, os Dagobés, gente que não prestava. Viviam em estreita d desunião, sem mulher sem lar, sem mais parentes, sob a chefia despótica do recém-finado. Este fora o grande pior, o cabeça, Ferrabrás e mestre, que botara na obrigação da ruim fama os mais moços "os meninos", segundo seu rude dizer.
2. Agora, porém, durante que morto, em não-tais condições, deixava de oferecer perigo, possuindo - no aceso das velas, no entre algumas flores -  só aquela careta sem-querer, o queixo de piranha, o nariz torto e seu inventário de maldades. Debaixo das vistas dos três em luto devia-se-lhe contudo guardar ainda acatamento, convinha.

 "A terceira margem do rio"
Um filho narra a estória da decisão do pai que abandona a família para morar na terceira margem do rio. Este manda fazer uma canoa, despede-se de todos e parte. A esposa diz: “Cê vai, ocê fique ,você nunca volte!”. Qual a razão da partida? Ninguém sabe. O filho furtava comida para levar ao pai até um local onde ele pudesse apanhá-la. A mãe facilitava essa artimanha do filho. A mulher, inconformada, chamou padre, soldados, jornalistas, para ver se conseguiria convencer o marido a parar com tal atitude. O pai fica longe e perto da família... A filha se casa e não quer saber de festejos. O neto nasce, mas ele não aparece para vê-lo. A irmã do narrador se muda. O narrador, cada vez mais, se parece com seu pai. Já velho, o narrador decide tomar o lugar do pai, que deixa a entender que aceita a troca. Mas o narrador, tomado pelo medo, foge dessa incumbência. O conto termina com o pedido do filho para que o coloquem numa canoa rio abaixo, quando morrer.

O fragmento textual que segue, retirado da narrativa A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, servirá de base para esta questão

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo [grifo nosso]. Eu sofria já o começo da velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais.
De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar o vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia. (ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.)

1. No quadro do Modernismo literário no Brasil, a obra de Guimarães Rosa destaca-se pela inventividade da criação estética. Considerando-se o fragmento em análise, essa inventividade da narrativa roseana pode ser constatada através do(a):
a) recriação do mundo sertanejo pela linguagem, a partir da apropriação de recursos da oralidade.
b) aproveitamento de elementos pitorescos da cultura regional que tematizam a visão de mundo simplista do homem sertanejo.
c) resgate de histórias que procedem do universo popular, contadas de modo original, opondo realidade e fantasia.
d) sondagem da natureza universal da existência humana, através de referência a aspectos da religiosidade popular.
e) Todas as afirmativas são corretas.
Leia o texto para responder  as questões seguintes:
      Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas pessoas sensatas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente - minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma  canoa.
      Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arquejada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
      Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez nenhuma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou:
- "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir  também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas  obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: - "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.  (Guimarães Rosa, J. Ficção Completa.Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1994, p. 409).
2. (PUC) Segundo o Texto, na visão do menino:
(A) a mãe era uma pessoa brava e enérgica; o pai, metódico e calado.
(B) a mãe não aprovava a idéia de ver o marido levar o filho para caçadas e pescarias.
(C) a mãe era a responsável pela saída do pai.
(D) o pai o abandonou, porque não gostava dele.
(E) era bom viajar com o pai, mas era melhor ficar no aconchego do lar.
3. Sobre o Texto, só NÃO podemos dizer que:
(A) apresenta cenário rural em que se percebem elementos arcaizantes.
(B) possui narrador de primeira pessoa que se mostra consciente de que seu narrar provém da memória.
(C) mostra, na figura feminina, traços da herança matriarcal.
(D) pretende reproduzir o linguajar dos habitantes da região retratada.
(E) desenha, com precisão, as características físicas, morais e psicológicas dos personagens.
4. O Texto  apresenta:
(A) preocupação evidente com a realidade social das populações sertanejas marginalizadas.
(B) narração focada na complexidade e na aparente gratuidade das ações humanas.
(C) explicação determinista para o comportamento dos personagens.
(D) posição ufanista diante da terra e do homem brasileiro, sendo este visto como um ser desbravador e heróico.
(E) descrição detalhista das riquezas naturais caracterizadoras do ambiente enfocado.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
5. A que se deve o desejo final do narrador do conto A terceira Margem do Rio?
 Depois de ter fraquejado em assumir a sina do pai de vagar no rio, sem pouso e sem beira, o narrador deseja quando morrer ser colocado para vagar nas  águas que não param. A sugestão é que assim ele cumpriria a sina para qual estava destinado.
6. Ao utilizar o vocábulo falimento, o personagem assume sua incapacidade para:
(A) prever o futuro        (B) substituir o pai             (C) esquecer a infância                (D) encontrar a verdade

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
7. O trecho acima apresenta algumas explicações para que o pai do narrador tivesse optado por isolar-se. Considerando a totalidade do texto alguma dessas opções são plausíveis?  Justifique.
As sugestões de loucura ou doença feia não podem ser tomadas com reais, já que o narrador não nos dá uma definição da personagem. Seus motivos e seu fim é um mistério.

8. O conto “A terceira margem do rio”, que faz parte do livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, é um dos textos mais célebres e complexos do autor. Acerca desse conto, é correto afirmar que
A ( ) ele retrata de forma simbólica o luto vivido pelo narrador, depois que seu pai passou a viver em uma canoa, o que equivale explicitamente à morte.
B ( ) ele apresenta o drama vivido pelo narrador, que não consegue nunca encerrar a espécie de luto na qual mergulha após a partida do pai, que nem vai embora nem regressa.
C ( ) se trata de uma obra cuja singularidade reside unicamente no fato de as personagens não terem nome e de não haver localização geográfica precisa.
D ( ) se trata de um texto que mostra de forma alegórica as dificuldades de uma família diante do drama da loucura, que levou o pai a embarcar na canoa.
E ( ) é impossível encontrar um sentido para a atitude do homem que embarca na canoa, e isso ilustra a imprevisibilidade do destino humano.
a) Errada. O advérbio “explicitamente” denuncia o erro desta alternativa. b) Correta. Esta é a temática do conto. c) Errada. O advérbio “unicamente” nos forneceu a pista para o erro desta alternativa. Trata-se de um dos contos mais célebres de Guimarães Rosa, autor marcado pela genialidade estilística e temática. Logo, o conto vai muito além do que se caracteriza nesta alternativa. d) Errada. A alegoria é a própria viagem em busca do inatingível e, não, a mera loucura. e) Errada. Não é que falte um sentido para atitude do pai, mas não se sabe qual é este sentido. Além disso, mais do que “a imprevisibilidade do destino humano”, temos a ilustração da vida “congelada”, isto é, quando não se regressa nem se vai em definitivo.
Trechos  escolhidos:
1. Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

2. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia... E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

3. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. ... — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.
4. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.

5. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade... Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim... não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento...
6. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava.
7. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai.
8. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável?
9. Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto.
10. Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
11. Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

"Pirlimpsiquice"
O narrador conta sua experiência inusitada quando foi representar uma peça de teatro com um grupo de colegas na escola. O prof. Perdigão era o autor do texto e se empenhava para que todos soubessem seus papéis de cor. O narrador tinha como tarefa ser o chamado ponto, ou seja, aquele que decora todas as falas da peça para auxiliar aqueles atores que, eventualmente, esquecem o texto original. Como havia um grupo de alunos opositores da turma, os atores começaram a criar uma peça falsa para enganar aqueles que não eram integrantes da montagem. Eles começaram a criar um 2o texto e a se entusiasmar mais com este do que com o do professor.
A turma dos “inimigos” começou a espalhar uma 3a estória, inventada por Gamboa, dizendo que aquela era a verdadeira. Além desses percalços, os atores-estudantes tinham de enfrentar mais uma dificuldade: Zé Boné jamais conseguia dizer seu texto sem erros ou esquecimentos. Ficou decidido que ele ficaria mudo no palco. No dia da representação, um dos principais atores não podia comparecer e restava ao narrador-ponto substituir o colega. Acontece que, diante do público, ele, que sabia todas as falas, se calou e teve um “branco”. Recebeu uma grande vaia e, em seguida, começou o texto. A vergonha tomou conta dos outros atores e outra vaia ocorreu. Coube a Zé do Boné, o que devia ficar mudo, salvar o grupo. Ele começou a representar a peça do desafeto da equipe, ou seja, o texto da 3a estória, cujo autor era Gamboa. O grupo não aceitou essa hipótese e começou a encenar o texto que haviam criado — a 2a estória. Eles não sabiam como terminar a peça, apesar da alegria de representar seu próprio texto. O narrador descobriu ”uma maneira de sair do fio, do rio, da roda, do representar sem fim.” Caminhou rumo à beira do palco e despencou lá de cima. “E me parece , o mundo se acabou.”

AQUILO NA NOITE DO NOSSO TEATRINHO FOI DE OH. O estilo espavorido. Ao que sei, que se saiba, ninguém soube sozinho direito o que houve. Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra: mas, mais do repente que da desordem, e menos da desordem do que do rumor.
...........................................
Então, querendo e não querendo, e não podendo, senti: que - só de um jeito. Só uma maneira de interromper, só a maneira de sair - do fio, do rio, da roda, do representar sem fim. Cheguei para a frente, falando sempre, para a beira da beirada. Ainda olhei, antes. Tremeluzi. Dei a cambalhota. De propósito, me despenquei. E caí.
E, me parece, o mundo se acabou.
1. Considerando os excertos acima comente levando em consideração a ordem dos elementos grifados.
Ao utilizar o termo “oh” Guimarães Rosa claramente  propõe que o acontecimento foi marcante para a vida  do narrador, tal afirmação se  comprova no termo destacado seguinte ao afirmar que  mesmo com o passar dos anos o grupo que realizou aquela peça de teatro improvisada não esqueceu. Também relembra que  como a peça era uma representação da vida, uma  única  forma dela terminar seria caindo. Forma que  temos  para parar. 

Trechos escolhidos:
1. "Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdadeira dignidade"
2. Zé Boné representava - de rijo e bem, certo, a fio, atilado ¬para toda a admiração. Ele desempenhava um importante papel, o qual a gente não sabia qual. Mas, não se podia romper em riso. Em verdade. Ele recitava com muita existência. De repente, se viu: em parte, o que ele representava, era da estória do Gamboa! Ressoaram as muitas palmas.
3. A princípio, um disparate - as desatinadas pataratas, nem que jogo de adivinhas. Dr. Perdigão se soprava alto, em bafo, suas réplicas e deixas, destemperadas. Delas, só a pouca parte se aproveitava. O mais eram ligeiras - e solertes seriedades. Palavras de outro ar. Eu mesmo não sabia o que ia dizer, dizendo, e dito - tudo tão bem - sem sair do tom. Sei, de, mais tarde, me dizerem: que tudo tinha e tomava o forte, belo sentido, esse drama do agora, desconhecido, estúrdio, de todos o mais bonito, que nunca houve, ninguém escreveu, não se podendo representar outra vez, l' nunca mais. Eu via os do público assungados, gostando, só no silêncio completo. Eu via - que a gente era outros - cada um de nós, transformado. O Dr. Perdigão devia de estar soterrado, des¬maiado em sua correta caixa-do-ponto.
4. Mas - de repente - eu temi? A meio, a medo, acordava, e da¬quele estro estrambótico. O que: aquilo nunca parava, não tinha começo nem fim? Não havia tempo decorrido. E como ajuizado terminar, então? Precisava. E fiz uma força, comigo, para me soltar do encantamento. Não podia, não me conseguia - para fora do corrido, contínuo, do incessar. Sempre batiam, um ror, novas palmas. Entendi. Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, sobrecrentes, disto: que era o verdadeiro viver? E era bom demais, bonito - o milmaravilhoso - a gente voava, num amor, nas palavras: no que se ouvia dos outros e no nosso próprio falar. E como terminar?

"Nenhum, nenhuma"

O narrador tenta apresentar uma série de reminiscências, talvez de sua infância, e que ocorrem de forma caótica. Somos apresentados sucessivamente a um casarão, a um homem sem aparência, que talvez fosse o pai da Moça que surge. Surge também um Moço que, como os outros, não tem nome e nem é bem delineado. Há poucas informações para reconstruirmos junto com o narrador sua memória. Sabe-se que tudo se passa em 1914. O Moço deixa claro, através de seu olhar, que estaria apaixonado pela Moça. Tentam esconder do Menino o que havia num quarto do casarão. Resolvem, não se sabe o porquê, deixar que o narrador visitasse o cômodo proibido. O mistério que lá existia era uma idosa que ninguém sabia quem era. A Moça tratava-a bem. Outras imagens surgem. O Moço quer casar com a garota, mas essa se nega. Este parte e leva também o Menino. Ao voltar para sua casa, o Menino, num desatino, chora e grita que os pais não se amavam mais, que eles “já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!...”

Os outros resumos....

Fatalidade
O narrador nos apresenta seu Amigo, que era delegado de polícia e exímio atirador. Com ares filosóficos, diz ao narrador que “só quem entendia de tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades.” Zé Centeralfe, humilde lavrador, casado, vem se queixar que sua esposa está sendo assediada por um tal de Herculinão. O delegado dá a entender que já conhecia o famigerado. A situação era tão crítica que o marido havia decidido pela mudança de localidade. Mas o malfeitor voltou a procurar a mulher e a semear a discórdia. O lavrador quer saber o que faz. O delegado nada diz, mas insinua que a melhor solução era matar Herculinão. Zé Centeralfe entende e apanha uma arma do delegado. Deixam a delegacia o marido, o delegado e o narrador. Encontram na saída com Herculinão. Ouvem-se dois tiros. O facínora está caído com duas balas: uma lhe acertara o marido; a outra, o delegado. O destino se cumprira. Os caminhos deles se cruzaram.
Seqüência
Voltamos a nos deparar com a força do destino, dentro da concepção roseana. Uma vaca abandona a propriedade onde está, na tentativa de retornar para sua querência, isto é, o local onde costumava ficar antes de ser vendida para a fazenda de seu Rigério. No percurso, ela se livra de vários percalços. O filho de seu Rigério vai atrás da vaca buscá-la. A vaca adianta-se e chega na frente dele à fazenda do Major Quitério. Lá chegando o rapaz, ele se depara com as quatro filhas do major e se apaixona pela segunda filha. O destino se cumpria.
O Espelho
Esboço de uma teoria sobre a alma humana. Texto complexo, repleto de reflexões filosóficas centradas na questão da imagem. O narrador afirma que “os olhos são a porta do engano”. Um dia, o narrador se vê num espelho de um lavatório público e sente repulsa, náusea. Desde então, busca ver a si — “o eu por trás de mim” — nos espelhos e usa todos os artifícios para isso. Tenta, em seguida, descobrir algum traço animal na sua imagem. Descobre-se uma onça. Depois, abandona essa tarefa de trabalhar a imagem. Fica meses sem se olhar num espelho. Um dia, sem nenhuma intenção, mira-se num espelho e não vê reflexo algum. Seria um desalmado? Anos depois, começa a ver um rosto se delineando: era o de um menino — seu “eu-interior”. Ele termina perguntando à pessoa para quem relatou e a quem chama apenas de senhor: “Você chegou a existir?”
Nada e a nossa Condição
Tio Man’Antônio é logo no início comparado pelo narrador a um rei ou príncipe de um conto de fadas. Trabalhador, amava sua esposa, Tia Liduína, a qual morre repentinamente. Abalado, visita a casa onde morara tantos anos, com sua amada. Pai de três filhas, ele tenta responder à pergunta que a mais nova fizera: “Pai, a vida é feita só de traiçoieros altos - e - baixos ? Não haverá, para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?” Sua resposta é uma frase que repete várias vezes ao longo do conto: “Faz de conta, minha filha... Faz de conta...” No aniversário da esposa falecida, faz uma festa. As filhas encontram nessa festa seus respectivos futuros maridos. Casam-se e partem da fazenda. O viúvo começa a organizar-se para doar tudo o que tem, exceto a casa-sede. Reparte tudo com as filhas e doa terras aos empregados, mas permanece na residência. Torna-se um incômodo para os novos proprietários das terras. Quando morre, inesperadamente, tem seu último desejo realizado: é cremado dentro da casa, que é incendiada.
O Cavalo que bebia Cerveja
O narrador é Reivalino Belarmino, que trabalha numa propriedade de um italiano, Seo Giovânio, o qual ele julga ser muito estranho devido a seus hábitos, entre eles o de dar cerveja para os cavalos. O narrador desconfia do patrão e não consegue superar essa má vontade insistente, nem quando o italiano lhe ofereceu dinheiro para que ele comprasse remédio para a sua mãe, que estava doente.
Surgem dois homens da capital, que pedem para que o subdelegado sirva de intermediador para um negócio: fazer com que Reivalino espione seu patrão, já que há suspeita de que ele seja um perigoso fugitivo. Mesmo reticente de início, o narrador aceita o papel de alcagoete. O que mais lhe intrigava na residência era o fato de existirem quartos permanentemente fechados. Ele relata isso para o policial, que vai até a fazenda fazer uma investigação, por insistência do narrador. Num dos quartos, havia um cavalo branco empalhado.
Descobre-se depois que o outro quarto era ocupado pelo irmão de Seo Giovânio, vítima de ferimentos de guerra, e que morre. Comovido por ver seu patrão tão abalado, Reivalino se arrepende de ter traído a confiança daquele e resolve partir. O patrão pede para que ele leve seu cachorro e o cavalo que bebia cerveja. Tempos depois, o italiano morre e deixa a propriedade para o narrador, que ergue um túmulo para o ex-patrão, enterra o cavalo branco e vende a chácara. O narrador termina bebendo cerveja “para fecho de engano”.
Um Moço Muito Branco
“Na noite de 11 de novembro de 1872”, um fenômeno luminoso “se projetou no espaço, seguido de estrondos, e a terra se abalou.” Muitas catástrofes naturais aconteceram em decorrência disso. Algum tempo depois, um moço assustado, perdido, desmemoriado, mudo, muito branco, com uma claridade forte aparece perto da residência de Hilário Cordeiro, que generosamente o acolhe. Muitos curiosos vêm para conhecer o forasteiro, cujo maior amigo se torna o preto José Kakende, escravo meio alforriado que tinha alucinações. Duarte Dias, pai da bela Viviana, não gostou do rapaz. Levaram-no na missa e ele comportou-se adequadamente. José Kakende fala sobre visões que teve na margem do rio, no dia do fenômeno. Ninguém dava atenção. Fatos estranhos ocorrem: o moço branco dá uma semente para o cego Nicolau, que a planta tempos depois, fazendo surgir flores que nunca haviam sido vistas na região. Hilário Cordeiro prospera como nunca. Numa festa de São João, o moço branco encontra Viviana e põe a mão no seu seio. Ela nunca mais deixou de sorrir. O pai da moça vê a cena, interpreta- a com malícia e exige que haja um casamento. Nem o padre apóia Duarte Dias nesta idéia. Tempos depois, Duarte Dias declara ter afeição pelo rapaz, que o leva pela mão até um local da sua propriedade e indica para que cavem. Encontram diamantes. No dia da festa de Santa Brígida, o moço branco desaparece, auxiliado por José Kakende, que tem novas “visões” para contar.
Luas-de-mel
Na propriedade de Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza chega uma carta do compadre Seo Seotaziano, pedindo para que acolhessem um casal de amantes fugitivos. Finalmente algo acontecia para quebrar a monotonia da vida do casal. Os fugitivos chegam e o padre é chamado para concretizar o casamento. Teme-se qual seria a reação do pai da moça. Joaquim Norberto arma-se para defender os jovens de eventuais ataques e convoca pessoas para auxiliá-lo nesse propósito. Chega notícia da parte da família dela: o irmão da noiva vem visitá-la, numa “missão de paz”. O jovem casal é convidado para ir tomar a bênção do pai da noiva e para participarem de uma recepção por ele promovida. O convite é extensivo ao casal que os acolhera. Joaquim envia seu filho como representante, prefere ficar com sua esposa. O amor do jovem casal reavivou o seu amor por Sa-Maria Andreza.
Partida do Audaz Navegante
Num dia de chuva, estão brincando na cozinha, sob o olhar rigoroso da mãe, três meninas e um primo, Zito. Das três, a mais sapeca é Brejeirinha, garota inventiva que lidava bem com as palavras e gostava de contar histórias com enredos complexos, nos quais utilizava, por vezes, vocabulário rebuscado. Ela conta a estória do Audaz Navegante. A chuva passa e pedem permissão para irem até as proximidades do riacho. A mãe permite, já que o primo está junto. Zito fica particularmente feliz, pois está de namorico com uma das irmãs, Ciganinha. Chegando lá, as irmãs, por galhofa, indicam um estrume de vaca ressequido como sendo o Audaz Navegador. Brejeirinha enfeita o estrume com flores e coloca-o no curso do riacho. Nesse momento, um trovão assusta a menina, que é socorrida pela mãe, que viera atrás das crianças. A chuva recomeça.
A Benfazeja
Mula-Marmela era uma mulher velha, suja, feia e guia de cegos. Era uma assassina: matara o marido, Mumbungo, que não prestava, pois matava os outros por prazer. Ele só respeitava a mulher. Parecia saber que nas mãos dela estava seu destino. E o destino se cumpriu: ela o mata, esfaqueando-o. Todos se sentem aliviados. Daí o título do conto: A Benfazeja. Apesar de assumir o filho do falecido, Retrupé, e ter livrado o local de tão mau homem, ela não recebe nada em troca, apenas desprezo. Pressentindo que Retrupé teria o mesmo hábito cruel, ela o cega. Como o pai, ele teme Mula-Marmela. Ele pede esmolas sempre em tom ameaçador e anda sempre com um facão. Um dia, tenta matá-la. Não conseguindo, arrepende-se e chama-a de mãe. Ela o recompõe e chama-o de filho. Nessa noite, ela o mata e parte sem deixar rastros. Antes de sumir, vê um cachorro morto e carrega-o nas costas: será talvez para ter companhia na hora de sua própria morte?
Darandina
Outro conto com forte teor anedótico.
O narrador, um médico, relata a estória da qual foi testemunha: um homem é perseguido, já que supostamente havia furtado. Correndo, o homem esconde-se no alto de uma palmeira. A multidão avoluma-se na praça para ver o acontecimento. Lá está o narrador e seu amigo Adalgiso. Dizem que o homem na árvore é o Secretário de Finanças Públicas. A multidão está em polvorosa. Os médicos fazem elocubrações a respeito do problema do louco: muito falam, pouco resolvem. A multidão se agita. São chamados os bombeiros. Chega então, à praça, o verdadeiro Secretário das Finanças. O homem se despe. Os bombeiros tentam resgatá-lo. Ele sobe ainda mais alto na árvore. De repente, recobra a lucidez. Sente-se envergonhado. A multidão enlouquece: acabaria o espetáculo? Querem linchá-lo. Ao chegar ao solo, ele volta a dizer frases desconexas e a multidão carrega-o em triunfo.
Substância
Conto carregado de lirismo. Maria Exita teve um destino cruel: a mãe a abandonara para “cair na vida”, o pai era leproso, o irmão era criminoso, entre outros infortúnios. Nhatiaga foi a única bondade que o destino lhe reservara: mulher boa, auxiliou-a para conseguir um emprego na fazenda do Samburá, em que trabalhava com polvilho. Foi aceita, mas fazia o trabalho mais árduo. Cresceu e tornouse uma bela mulher. O patrão, Sionésio, a viu e se encantou. Um dia, propõe-lhe casamento. Ela aceita de imediato. Entretanto, ele teme que o destino do qual ela fora vítima se reproduza para ele. O amor, porém, é mais forte e eles se decidem pelo casamento.
Tarantão, meu patrão
Conto que remete à história de D. Quixote e Sancho Pança. Iô João-de-Barros, fazendeiro, tem por empregado Vagalume, o narrador da história. Idoso e sem muito juízo mental, o patrão decide ir para a cidade atrás de um sobrinho médico. A família enviara Iô para a fazenda, para se livrar de suas sandices. Vagalume não agüentava mais trabalhar para o homem. Mas submetia-se, pois precisava do dinheiro. Com uma faca, o velho diz que vai matar o sobrinho, que lhe fizera uma lavagem intestinal e lhe aplicara injeções. No caminho até a cidade, ele arregimenta uma série de “out-siders” que o acompanham. Chegando num arraial, há uma festa com fogos e o “novo D. Quixote” acha que a recepção é para ele. Joga moedas para o povo. Novas pessoas se juntam ao grupo do cavaleiro. Todos o acompanham rumo à cidade. Lá chegando, vai à casa do sobrinho, que festejava o batizado do filho. Iô João-de-Barros faz um discurso que emociona os familiares presentes. É convidado para participar da festa, convite que é aceito com uma condição: tirar todos os que o haviam seguido pudessem sentar à mesa e participar da refeição.
Os Cimos
Este conto é como o encerramento de um ciclo, já que retoma a personagem o Menino, do 1o conto do livro. Agora, ele está triste, pois apesar de retornar para o mesmo local, Brasília, o motivo da viagem é outro: a mãe adoecera e a família acha por bem afastá-lo desse momento doloroso. Ele não está feliz. Nada o atrai. Entretanto, ele vê um dia um tucano e se encanta. Era um pouco de distração, já que ficava o dia inteiro pensando na mãe. O tucano voltava todo dia no mesmo horário. Chega um telegrama: o tio fica apreensivo. O menino começa a mentalizar pensamentos positivos. Deu certo: a mãe se recuperou.

Mia questões:
 O trecho a seguir foi extraído do conto Nada e Nossa Condição, da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa. Vejamos:
Enfim, tornou para junto delas, de sua Liduína – imovelmente – a o século, como a quisessem: num amontôo de flores. Suspensas, as filhas, de todo ao não entender, mas adivinhar, dele a crédito vago esperassem, para o comum da dor, qualquer socorro. Ele, por detrás de si mesmo, pondo-se de parte, em ambíguos âmbitos e momentos, como se a vida fosse ocultável; não o conheceriam através de figuras. Sendo que refez sua maciez; e era uma outra espécie, decorosa, de pessoa, de olhos empalidecidamente azuis. Mas fino, inenganador, o rosto, cinzento moreno.
Transluz-se que, fitando-o, agora, era como se súbito as filhas ganhassem ainda, do secesso de seus olhos, o insabível curativo de uma graça, por quais longínquos, indizíveis reflexos ou vestígios. Felícia, apenas, a mais jovem, clamou, falando ao pai: – "Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos? Não haverá, para a gente. Algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?" E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz: – "Faz de conta, minha filha... Faz de conta..." Entreentendidos, mais não esperaram. Cabisbaixara-se, Tio Man`Antônio, no dizer essas palavras, que daí seriam as suas dele, sempre. Sobre o que, leve, beijou a mulher. Então, as filhas e ele choraram; mas com o poder de uma liberdade, que fosse qual mais forte e destemida esperança.
Tia Liduína, que durante anos de amor tinham-na visto todavia sorrir sobre sofrer – só de ser, vexar-se e viver, como, ora, dá-se – formava dolorida falta ao uso de afeto de todos. Tia Liduína, que já fina música e imagem. (Guimarães Rosa, Nada e Nossa Condição in Ficção Completa, vol. II: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995).
1. A partir de uma leitura atenta do trecho assinale a incorreta:
(A) O trecho relata o velório de Tia Liduína, marcado entre outras passagens em de sua Liduína – imovelmente – ao século.
(B) Tio Man'Antônio esforça-se por assumir uma feição de segurança diante das filhas, porém não consegue disfarçar completamente sua dor, o que fica evidente no trecho em que aparece o neologismo inenganador, no primeiro parágrafo).
(C) O trecho é o relato da festa de casamento das filhas de Tio Man'Antônio.
(D) Tio Man'Antônio assumirá, ao longo da narrativa, uma dimensão mítica de justiça e de proteção, típica da figura paterna dos contos de fadas. O que já se insinua no trecho Faz de conta, minha filha... Faz de conta..., no segundo parágrafo.
(E) No trecho Tia Liduína, que durante anos de amor tinham-na visto todavia sorrir sobre sofrer notamos uma construção típica de Rosa, como a conciliação dos opostos "sorrir" e "sofrer".

2. (PUC-SP) E o tucano, o vôo, reto, lento como se voou embora, xô, xô! mirável, cores pairantes, no garridir; fez sonho. Mas a gente nem podendo esfriar de ver. Já para o outro imenso lado apontavam. De lá, o sol queria sair, na região da estrela-d’alva. A beira do campo, escura, como um muro baixo, quebrava-se, num ponto, dourado rombo, de bordas estilhaçadas. Por ali, se balançou para cima, suave, aos ligeiros vagarinhos, o meio-sol, o disco, o liso, o sol, a luz por tudo. Agora, era a bola de ouro a se equilibrar no azul de um fio. O Tio olhava no relógio.Tanto tempo que isso, o Menino nem exclamava. Apanhava com o olhar cada sílaba do horizonte.
2. Sobre o trecho acima, do conto Os cimos, de Guimarães Rosa, é incorreto afirmar que:
a) é texto descritivo caracterizador da natureza, representada pela presença da ave e do amanhecer.
b) utiliza recursos de linguagem poética como a onomatopéia, a metáfora e a enumeração.
c) descreve o tucano, utilizando frase nominal e de encadeamento de palavras com força adjetiva.
d) apresenta um estilo repetitivo que confunde o leitor e impede a manifestação da força poética do texto.
e) pinta com luz e cor a linha do horizonte, onde em “dourado rombo, de bordas estilhaçadas”, nasce o sol.
3. (UFLA) No conto Os Cimos (Primeiras Estórias, Guimarães Rosa), o menino mostra-se essencialmente
a) corajoso b) determinado  c) esperto  d) revoltado  e) inseguro

4. Sobre os contos presentes em Primeiras Estórias (1962), de João Guimarães Rosa (1908-1967), considere as afirmativas a seguir.
I. Em “Os Irmãos Dagobé”, a norma, considerando-se os valores do sertão, seria o assassinato de Liojorge, uma vez que aí a vingança é a lei. Acontece que Liojorge não é assassinado, pois os irmãos sertanejos resolvem mudar de vida, optando pelos valores da cidade.
II. Em “Fatalidade”, a norma seria o assassinato de Herculião Socó, uma vez que a estória se passa no sertão. Zé Centeralfe prefere, no entanto, esquecer o acontecido, não chegando sequer a dirigir-se à delegacia de Amparo, onde certamente contaria com o auxílio da polícia.
III. No final do conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, a comunidade acompanha Sorôco a sua casa, assumindo o canto de loucura dele, canto este que foi por ele tomado da mãe louca, que, por sua vez, em ato de solidariedade, tomou-o da neta em estado de completo delírio. O canto une a comunidade.
IV. Em “A terceira margem do rio”, o sentimento de fracasso do filho deriva do fato de não ter amparado sua mãe no momento de infortúnio, deixando-a, juntamente com seus irmãos, à mercê do destino e de um padrasto cruel.

Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.   b) I e III.   c) II e IV.   d) I, III e IV.   e) II, III e IV.

(PUC-SP) O livro Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, começa com o conto As margens da alegria e termina com Os cimos.

Há uma semelhança entre eles que é a caracterização do mundo interior de um menino, através de recursos do discurso indireto livre. Sobre esses dois contos, é possível afirmar que:
a) os contos tratam do mesmo tema, ou seja, relatam situações vividas por um menino em companhia de seus tios, situações essas marcadas por envolvimentos emocionais diferentes.
b) o segundo conto é uma continuação do primeiro e, em ambos, a viagem se faz em estado de sonho.
c) as personagens e o contexto são os mesmos e em ambas as narrativas o menino se encanta com a beleza e o esplendor de um tucano.
d) o primeiro conto é marcadamente psicológico e poético e o segundo é mais satírico e prosaico.
e) o desfecho de ambos é trágico e inusitado e nega os títulos de ambas as narrativas.

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