segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Memórias do Escrivão Isaías Caminha - Prof. Mara Rute Elabora questões para a UESC


 Primeiras Palavras...
Olá, esse é o nosso primeiro encontro do ano. Fico feliz que 2011 tenha acabado e espero que em 2012 seu sonho de chegar a universidade se realize. Estamos trabalhando muito para isso.
Faltam 06 dias para o vestibular do UESC e sei que para alguns é muito pouco tempo ... fica aquela sensação de que ainda falta estudar muita coisa... Relaxe e continue fazendo o que você pode, buscando ultrapassar um pouco os seus limites.
Fernando Pessoa disse: A minha parte é feita, o por fazer-se é só com Deus. Então faça a sua parte e deixe o resto com quem pode mudar destinos.
Tem sido uma honra compartilhar dessas preciosas horas com você!
Mara  Rute  Lima
A história
Esse livro pertence ao gênero romance. Único no processo da UESC. A trama é simples, trata-se de um jovem do interior que sonha em ser doutor (como forma de melhorar de vida e limpar-se da condição de  “azeitonado”) e para isso vai para o Rio de  Janeiro. Lá, presencia a dura  realidade de uma cidade preconceituosa e cruel. Peregrina durante muito tempo passando até necessidade. Consegue um emprego no jornal, mas sua melhoria de vida não se relaciona ao estudo e sim as relações  que  estabelece e a segredos que passa a guardar. Termina a história percebendo que a cidade lhe corrompeu e, sobretudo que os  valores vigentes não são os de  estudo e mérito.


1. A abertura do livro é feita por Isaias que se lembra da educação que recebeu na infância e já claramente estabelece uma distinção entre a relação com o pai – padre instruído e sua mãe, leiga. De que maneira se percebe no livro a influência do pai como maior que a mãe?

Isaias escolhe estudar e doutorar-se, inclusive como forma de livrar-se de sua condição racial – azeitonado. Aliado a isso, em suas memórias, lembra-se sempre a da superioridade do pai sobre a mãe que lhe aparecia triste e humilde diante da capacidade do pai de dizer os nomes das estrelas do céu e explicar a natureza da chuva.

Leia o trecho:
Passava por um largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens cinzentas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim, um bando de patos negros passou por sobre a minha cabeça, bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que voava na frente, a formar um V. Era a inicial de “Vai”. Tomei isso como sinal animador, como bom augúrio do meu propósito audacioso. No domingo, de manhã, disse de um só jato à minha mãe:
— Amanhã, mamãe, vou para o Rio.
2.  Com base no trecho acima comente sobre a visão de Isaias, aliado a circunstância em que tal visão acontece e a realidade encontrada no Rio de Janeiro.
Ao concluir os estudos Isaias, com uma boa reputação de estudante, ainda esperou pelo menos dois anos para ir ao Rio de Janeiro. A maior parte do tempo vivia pela manhã decidido a ir a cidade grande e a tarde a pensar nas dificuldades da cidade com seus egoísmo e sua falta de protetores para vencer nela. Ao ler uma notícia no jornal sobre seu colega Felício que recebia o elogio pela formação em farmácia pensou que se seu amigo tão burro a quem deu aula de português tinha conseguido, porque ele não.  Pouco depois viu os pássaros no trecho acima e tomou isso com um sinal de que deveria partir.
Diferente de Felício não se formou no Rio, apenas transformou-se em jornalista, não por mérito, mas por depois de muito tempo trabalhando como auxiliar ter descoberto um segredo do chefe do jornal. E, antes da condição de trabalhar no Globo enfrentou a fome, o preconceito racial e  a solidão na grande cidade do Rio.


E seu tio Valentim – quase um pai, conseguiu para Isaias o que considerava elemento fundamental para a vida no Rio: uma carta do coronel Belmiro para o deputado Castro que ele ajudou a eleger. Na carta pedia para que o deputado providenciasse um trabalho para Isaias. Aqui o narrador deixa antever a sensação de poder do coronel. Porém, quando Isaias chega ao Rio Isaias percebe que a carta não tem validade alguma e que ele não é sequer bem recebido pelo deputado. Esse inclusive lhe manda voltar num dia em que sabe que não vai estar. Logo, as impressões primeiras sobre sua vida no Rio se desfazem e ele vivencia um Rio de Janeiro cruel e não acolhedor como esperava que fosse. O leitor também percebe um coronel que já não tem poder  na  sociedade do século XX.
Denúncia do voto de cabresto, da política do interior.

3. O livro aborda um tema constante na obra de Lima Barreto: o do preconceito racial. Assinale a alternativa que não contenha um trecho que permita antever isso:
a) “Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor...”
b)” Doutor, como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...”
c) “ Não tenho pejo em confessar  hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos.”
d) “ Entretanto, isso tudo é uma  questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa.”
e) “ se me esforço em fazê-lo literário é para que possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral eno seu interesse, com a linguagem acessível a ele.


“O trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, porém, o fiz; não sei mesmo em que estação. Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma pequena nota a pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco reclamei: "Oh! fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. Que pressa tem você?! Aqui não se rouba, fique sabendo!" Ao mesmo tempo, a meu lado, um rapazola alourado reclamava o dele, que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação. ... Mesmo de rosto, se bem que os meus traços não fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada”.
Trecho em que o autor deixa claro a questão racial.

4. Machado de Assis em suas obras e também em Papéis Avulsos ressalta a questão do título como importante na sociedade. Explique  como tal questão aparece nas  obras de Machado e de Lima Barreto respectivamente.
Em Memórias Póstumas Machado propõe  a ideia de Brás de tornar-se doutor para apenas aprender o esqueleto do código, deixando antever a busca do título  não pelo conhecimento, mas pelo reconhecimento social que esse porventura vem a oferecer. No conto Machadiano em Papéis Avulsos o pai chega a aconselhar o filho para que esse busque parecer, mais do que ser sábio. Não é diferente de Isaias Caminha: seu desejo de ser doutor revela seu anseio de ser esquecido pela condição racial e social. Afirma inclusive que a palavra doutor na sociedade era mágica (As pessoas, de fato, respeitavam). Quando se fez jornalista aprendeu a servir-se de outros jornais, a calcar seus artigos no que todo mundo dizia, não ter opinião divergente e assimilou de outros jornalistas o hábito de aprender ciências como Finanças e Economia Política lendo as notícias superficiais do jornal e citações de autores Célebres. Ao comportar-se assim age tal qual as recomendações do pai ao seu filho quando alcançou a maioridade em A Teoria do Medalhão.


“Escrevendo estas linhas, com que saudades me não recordo desse heróico anseio dos meus dezoito anos esmagados e pisados! Hoje... É noite.
Descanso a pena. No interior da casa, minha mulher acalenta meu filho único. A sua cantiga chega-me aos ouvidos cheia de um grande acento de resignação. Levanto-me, vou à varanda. A lua, no crescente, banha-me com meiguice, a mim e a minha humilde casa roceira. Por momentos deixo -me ficar sem pensamentos, envolto na fria luz da lua, e embalado pela ingênua cantilena de minha mulher. Correm alguns instantes; ela cessa de cantar e o brilho do luar é empanado por uma nuvem passageira. Volto às minhas reminiscências: vejo o bonde, a gente que o enchia, os sofrimentos que me agitavam, a rua transitada...
Os meus desejos de vingança fazem-me agora sorrir e não sei por que, do fundo da minha memória, com essas recordações todas, chega-me também a imagem de uma pesada carroça, com um grande lajedo suspenso por fortes correntes de ferro, vagarosamente arrastada sobre o calçamento de granito, por uma junta de bois enormes, que o carreteiro fazia andar com gritos e ferroadas desapiedadas...”
5. A partir do trecho acima e considerando a totalidade da obra comente sobre as características do narrador nessa obra.
Ao afirmar que seus sonhos de dezoitos anos estão esmagados e pisados o autor remete-se ao menino estudioso do interior que sonhava em fazer-se doutor no Rio de Janeiro. Em seguida ao utilizar o termo “ é Noite” revela ao leitor que não conseguiu, fruto de um comodismo como um auxiliar no jornal o Globo e um jornalista, não por mérito.


6. Quando Isaias vai procurar o deputado Castro na câmara o narrador revela a admiração que esse tem pelos legisladores em seguida mostra a grande decepção que terá depois da visita a que se deve sua decepção?

No seu imaginário Isaias pensava numa câmera de deputados associando-a aos grandes reis Assírios e aos filósofos Gregos. Sua decepção foi perceber que os legisladores da pátria eram sem organização e grandes causas.  Estranhou inclusive que em tal lugar de arquibancada grosseira e tanto barulho  se produzisse leis. Não foi diferente sua decepção com o deputado Castro - tinha uma carta do coronel pedindo emprego para ele. Não o encontrou na câmera, nem em casa, só na casa de sua amantes.

7. Assinale a alternativa que não contenha um trecho em que haja a presença da metalinguagem: 
a) “Penso — não sei por quê — que é este meu livro que me está fazendo mal... E quem sabe se excitar recordações de sofrimentos, avivar as imagens de que nasceram não é fazer com que, obscura e confusamente, me venham as sensações dolorosas já semimortas?”
b)  “Talvez mesmo seja angústia de escritor, porque vivo cheio de dúvidas, e hesito de dia para dia em continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo”
c)“ Se me esforço por fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.”
d) É este o meu propósito, o meu único propósito (...)Confesso que os leio, que os estudo, que procuro descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer. Mas, não é a ambição literária que me move o procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações.
e) Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo; a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença”.


Sobre ele mesmo e sua personalidade ele vai propondo ao  leitor:
“O caminho na vida parecia-me fechado completamente, por mãos mais fortes que as dos homens. Não eram eles que não me queriam deixar passar, era o meu sangue covarde, era a minha doçura, eram os defeitos de meu caráter que não sabiam abrir um. Eu mesmo amontoava obstáculos à minha carreira; não eram eles...
Não seria tolice, pusilanimidade escondida fazer repousar a minha felicidade na presteza com que um qualquer deputado atendesse um pedido de emprego? Era possível tê-los sempre à mão para os dar ao primeiro que aparecesse?
As condições de minha felicidade não deviam repousar senão em mim mesmo — conclui... Mas não era só isso que eu via. O que me fazia combalido, o que me desanimava eram as malhas de desdém, de escárnio, de condenação em que me sentia preso.”
8. A partir do trecho acima trace a personalidade de Isaias Caminha:
A personagem narradora associa a ideia de seu fracasso na vida ao elemento do destino, proposto com a ideia de que possuía um sangue covarde e um caráter defeituoso. Seu caráter fica bem visível quando aceita viver “a vidinha” no jornal em detrimento de sua ambição: estudar e virar doutor. Também reflete que o sonho de chegar no Rio e encontrar um emprego dado por um deputado e uma vida sem dificuldades parece, com os olhos do presente, um sonho tolo e que a sua felicidade ou a vida no Rio deveria provir dele mesmo. De seu esforço.

Um tema importante no livro, senão o mais importante é o tema do jornalismo. Como ele é produzido, a mediocridade que o cerca, o poder da mídia sobre a sociedade, a defesa de interesses pessoais. Segue em seguida algumas das importantes reflexões que o livro  faz a esse  respeito:
“Pagou sim, apressou-se em responder Plínio de Andrade; mas um dos empregados da livraria disse-lhe insolentemente: Você paga este sobre a Grécia, que queria levar agora e também o romance francês que levou anteontem... A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda a prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com o seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o sol nasce é porque eles afirmam tal coisa... E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades, de modo que...”


—Oh! Caminha! Onde tens andado? Que tens, rapaz?
Era Gregoróvitch Rostóloff. Falei, contei-lhe a vida. Os seus olhos de conta mais se arredondaram de
desconfiança; mas, depois de duas ou três perguntas, de examinar-se o vestuário e algumas palavras de consolo, ao despedir-se, assim me convidou:
—Aparece-me logo, à noitinha, na redação do O Globo.
9. Qual a importância dessa cena  para a  vida de  Isaias  Caminha?

Isaias Caminha acreditou que sua chegada ao Rio fosse garantir-lhe uma vida melhor do que a que tinha no interior. No curto período, porém, ele não conseguiu o emprego que supostamente teria do deputado como garantia do coronel do interior que utilizou inclusive meios ilícitos para elegê-lo; a família enfrenta as doenças da mãe que impede de enviar mais ajuda financeira; é acusado de roubo no hotel por causa da sua cor e chega mesmo a passar fome. Quando recebe o convite do jornalista tem também a oportunidade de ser contínuo do jornal. E assim, condições de viver no Rio de Janeiro - não na vida que imaginava.

“De tal maneira é forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois cheguei a ter até orgulho da minha posição. Senti-me muito mais que um continuo qualquer, mesmo mais que um continuo de ministro. As conversas da redação tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia ministros, demitia diretores, julgava juizes e o presidente, logo ao amanhecer, lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o placet desejado do doutor Ricardo. Participar de uma redação de jornal era algo extraordinário, superior, acima das forças comuns dos mortais; e eu tive a confirmação disso quando, certa vez, na casa de cômodos em que morava, dizendo-o ao encarregado que trabalhava na redação do O Globo, vi o pobre homem esbugalhar muito os olhos, olhar-me de alto a baixo, tomar-se de grande espanto como se estivesse diante de um ente extraordinário. As raparigas que residiam junto a mim, lavadeiras e costureiras, criadas de servir, apelidaram-me “o jornalista”, e mesmo quando vieram a ter exato conhecimento da minha real situação no jornal, continuei a ser por esse apelido conhecido, respeitado e debochado”.

Depois  revela  como eram as  relações  no jornal ...
“Quando se tratava de per si com qualquer dos empregados do jornal, ficava-se admirado que a folha se imprimisse e se escrevesse diariamente. Floc tinha em pouca conta Losque: um bufão, dizia ele; Bandeira desprezava Floc: um eunuco; e todos como que pareciam querer entredevorar-se até aos ossos. Entretanto, quando um fazia anos, a seção competente gemia e os adjetivos mais ternos e mais camaradários não eram poupados. De seção para seção, a guerra era terrível. A revisão dizia que a redação era analfabeta; a tipografia acusava ambas de incompetentes; e até a impressão que não lia nem via originais tinha uma opinião desfavorável sobre todas três.
A redação não perdoava a menor falha da revisão. Às vezes, eram os originais defeituosos; em outras, havia descuido ou a pretensão fazia emendar o que estava certo; mas sempre as reclamações choviam por parte dos redatores, dos colaboradores e dos repórteres.


O livro trata de uma questão interessante que permeava o contexto em que  foi produzida a obra:  a  reforma do Rio de Janeiro  para  não perder da  argentina -  tida  como européia.  Sem planejamento resolvemos  reformar o Rio e,  para ilustrar  essa ação meio louca ele  conta  do projeto  dos  sapatos  obrigatórios .

Questão
“ O motim não tem fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem ligação alguma com o que tiroteia acolá. São independentes; não há um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência, e moralidade. Começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde e alguém lembra: vamos queimá-lo. Os outros não refletem, nada objetam e correm a incendiar o bonde.
No jornal exultava-se. As vitórias do povo tinham hinos de vitórias da pátria. Exagerava-se, mentia-se, para se exaltar a população. Em tal lugar, a polícia foi repelida; em tal outro, recusou-se a atirar sobre o povo. Eu não fui para casa, dormi pelos cantos da redação e assisti à tiragem do jornal: tinha aumentado cinco mil exemplares. Parecia que a multidão o procurava como estimulante para a sua atitude belicosa. O serviço normal da folha fazia-se com atividade. Os repórteres iam aos lugares perigosos, aos pontos mais castigados pela polícia, corriam a cidade em tílburis. Nem os revisores nem os seus suplentes faltavam à chamada; outro tanto sucedia com os tipógrafos e os outros operários.
Toda essa abnegação era para garantir os seus mesquinhos empregos. Um pobre tipógrafo, que morava para a Saúde, onde o transito se fazia com os maiores perigos, ficou todos os três dias no jornal. Temia ser morto por uma bala perdida. Houvera muitas mortes assim, mas os jornais não as noticiavam. Todos eles procuravam lisonjear a multidão, mantê-la naquelas refregas sangrentas, que lhes aumentava a venda. Não queriam abater a coragem do povo com a imagem aterradora da morte. A polícia atirava e não matava; os populares atiravam e não matavam. Parecia um torneio... Entretanto eu vi morrer quase em frente ao jornal um popular. Era de tarde. O pequeno italiano, na esquina, apregoava os jornais da tarde: Notícia! Tribuna! Despacho!”( Memórias do Escrivão Isaias Caminha)

Na canção O Salto o Rappa diz: “Aos jornais eu deixo meu sangue como capital e às famílias um sinal”
10. É possível estabelecer uma clara relação entre o trecho acima e a canção? Justifique.

O trecho propõe uma relação forte entre a violência – em partes comandada pelo próprio jornal, a venda (a mais) de 5 mil exemplares e o uso do jornal pelo povo como estimulante para seus atos de violência. Ao propor dessa forma, o autor estabelece uma relação capital – lucratividade - que o jornal (nesse caso O Globo onde trabalhava Isaias) tinha com aquele motim no Rio de Janeiro. A reflexão que a canção O Salto faz de que os jornais receberiam o sangue (representação de morte) como capital cumpre o mesmo sentido.


A  construção de  um herói
O homem que acaba de morrer não era um homem vulgar. No domínio de sua difícil arte, era uma notabilidade respeitada. Para nós, era muito mais: era um amigo, um dedicado e leal amigo a quem muito devíamos e prezávamos. Todos os que mourejam nesta tenda de trabalho, certamente não hão de esquecê-lo e não há nenhum que não tenha recebido um favor, uma alegria, uma satisfação de suas mãos.
O público que nos lê, não sabe o quanto esta vida de jornalista é esgotante e ingrata; não sabe que soma de energia ela exige e como nos tira os melhores momentos de ócio e os melhores minutos de prazer. Vivemos por assim dizer para os outros; e quem vive para os outros, é claro que muito pouco pode viver para si.
Charles de Foustangel atravessava a nossa vida como um anjo protetor; dele, tirávamos alguns raros instantes de alegria no meio das agruras que nos cercam. Era de ver como ele sabia desenvolver um menu, como imaginava um ‘quitute’ inédito, um prato saboroso, que verve especial punha nos nomes com que os batizava e que raros gozos eles traziam aos nossos paladares fatigados por esses hotéis detestáveis que nos impingem solas duríssimas por bifes de grelha. Quantas ocasiões não fomos nós de mau humor para a mesa de jantar, enervados, sem vontade de trabalhar, com a encomenda do artigo, da reportagem, da crônica para o dia seguinte e sem coragem para fazê-los, e nos levantávamos, graças à brandura do seu tempero e a eurritmia dos seus molhos, satisfeitos, solertes, cheios de novas energias!
......
Todos os jornais se referiram ao inditoso Charles de Foustangel e alguns abriram subscrições para socorrer a família do cozinheiro. Fora do convívio jornalístico, as manifestações de pesar não foram menores: o Centro dos Estudantes passou um telegrama de pêsames ao presidente da República Francesa e ao cortejo do enterro concorreram mais de cinqüenta carros, levando perto de uma centena de pessoas, entre as quais altas patentes do Exército e Marinha, diretores de repartições, homens da bolsa, literatos aclamados, revolucionários temidos e um capitão do Estado Maior, representando o presidente da República.
..............................
Seguiam-se-lhe as caleças, as vitórias e coupés, transportando a alta administração, civil e militar, as finanças, as letras e a revolução profissional, em tocante homenagem ao grande homem que era o cozinheiro do doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O Globo.
Questão
11. Qual é o juízo crítico que se pode estabelecer do texto acima?
O trecho, mas, sobretudo, o livro passa a limpo o cotidiano num jornal fazendo reflexões sobre a produção da notícia, o poder da mídia e as construções alienantes que essa propõe. Essa é tida como um quarto poder que subjuga políticos e homens importantes a um jornalista. A trecho em destaque possui uma crítica sutil à construção de um herói póstumo. O tal homem não passava de um cozinheiro do diretor do jornal que assume notoriedade post-mortem depois de uma nota no Jornal O Globo que leva a produção em cadeia de condolências ao cozinheiro – visto agora como herói. Não é incomum casos de construções de noticias em cadeia como o Caso Bruno, Menino Hélio ou outros que a mídia explora e demoniza ou exalta.

Adelermo, antes que tomássemos qualquer providência, entrou. Correu ao telefone para avisar o diretor. O doutor Loberant não estava; tinha saído às dez horas para o jornal. A polícia fora avisada e era preciso que ele o fosse também. Onde estaria? Veio o Rolim. Adelermo e ele cochicharam. O redator de plantão chamou-me.
— Caminha! Tu vais aí a um lagar e do que vires não dirás nunca nada a ninguém. Juras?
— Juro.
— Vais à casa da Rosalina, procurar o doutor Loberant... É preciso discrição, hein? O Rolim não pode ir, tem que ficar aqui, para o que der e vier... Vai! Mas não fales nada, nunca!
— Entra, custe o que custar, recomendou-me Adelermo ao sair, e deu-me dinheiro.
12. Qual a importância disso para a vida de Isaias?  Justifique

Ao encontrar o diretor do Jornal em plena Orgia na casa de Rosalinda e deixando-o em situação vexatória ganhou do diretor uma atenção maior. Esse começou a lhe fazer perguntas de boa amizade.
 O diretor achava extraordinário a formação familiar e educação de Isaias deixando claro para o jovem do interior que os homens e mulheres do Brasil são quase sempre iletrados e os primeiros tornam-se malandros, planistas e as mulheres, fêmeas. Depois de ser elevado a condição de Jornalista, bater em um dos seus colegas e jantar com o diretor Isaias, por causa da intimidade com Loberant, passou a ser respeitado no jornal.

O final...
Chegamos afinal a uma casa. Lembrei-me da minha casa paterna. Era o mesmo aspecto, baixa, caiada, uma parte de tijolos, outra de pau-a-pique; em redor, uma plantação de aipins e batata-doce. Deram-nos água, ofereceram-nos café e continuamos para o Galeão que estava próximo. Quando chegamos à praia, o dia tinha agonizado de todo. Fomos a uma venda, pedimos algumas latas de sardinha, pão e vinho. Fomos servidos em velhos pratos azuis com uns desenhos chineses e as facas tinham ainda aquele cabo de chifre de outros tempos. À vista deles, dos pratos velhos e daquelas facas, lembrei-me muito da minha casa, e da minha infância. Que tinha eu feito? Que emprego dera à minha inteligência e à minha atividade? Essas perguntas angustiavam-me.
Voltamos de bote para a ponta do Caju. Durante a viagem a angústia avolumou-se-me. As pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira fosforescente.
Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar.
A italiana conversava com o remeiro sobre a pesca. Ela conhecia a vida e fazia perguntas nítidas
Saltamos do bonde, no Campo de Sant'Ana, eu e Leda tomamos um carro; o diretor continuou para o jornal.
Em vão ela me fazia falar. Respondia-lhe por comprazer. Lembrava-me... Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho com a forca de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro.
Às minhas aspirações, àquele forte sonhar da minha meninice eu não tinha dado as satisfações devidas.
A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado, atemorizado, feito adormecer em mim com seu cortejo de grandeza e de força. Rebaixara-me, tendo medo de fantasmas e não obedecera ao seu império.
O carro atravessara o Largo da Lapa e o seu caminho foi interrompido por uma aglomeração de populares.
Da caleça, pude ver o que havia. Era uma mulher das muitas que povoam o largo e proximidades, que ia entre dois soldados. Recordei-me que já tinha visto aquela fisionomia. Esforcei-me por lembrar. A minha vida começou a desfilar e quando cheguei à casa da italiana, lembrei-me que era a amante do Deputado Castro.
Perguntei então a mim mesmo por que não casara aquela rapariga, por que não vivera dentro dos costumes tidos por bons. Não achei resposta, mas julguei-me, não sei por quê, um pouco culpado pela sua desgraça.
O carro chegou e eu saltei para ajudar Leda a apoiar-se. Paguei ao cocheiro e, na calçada, e a perguntou-me:
— Não entras?
— Não, obrigado.
Insistiu várias vezes, mas recusei. Vim vagamente a pé até ao Largo da Carioca, sem seguir um pensamento.
Vinha triste e com a inteligência funcionando para todos os fados. Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos, mas esse era o principal. Por que o tinha sido? Um pouco devido aos outros e um pouco devido a mim. Encontrei Loberant:
— Então? perguntou maliciosamente.
— Deixei-a em casa.
— Pois se eu me tinha separado de vocês de propósito... Tolo! amos tomar cerveja...
Antes de entrar, olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos e os acontecimentos. As cogitações não me passaram... Loberant, sorrindo e olhando-mecom complacência, ainda repetiu:
— Tolo!
Todos os Santos, Rio de Janeiro — 1908




Questões UESC e Questões de Interpretação
Chegou e eu esperei ainda. Afinal, fui levado à sua presença. Ao lado, em uma mesa mais baixa, lá estava o Capitão Viveiros, o tal escrivão, muito solene, com a pena atrás da orelha, o seu olhar cúpido e a sua papada farta. O delegado pareceu-me um medíocre bacharel, uma vulgaridade com desejos de chegar a altas posições; no entanto, havia na sua fisionomia uma assustadora irradiação de poder e de força. Talvez se sentisse tão ungido da graça especial de mandar, que na rua, ao ver tanta gente mover-se livremente, havia de considerar que o fazia porque ele deixava. Interrogou-me de mau humor, impaciente, distraído, às sacudidelas. Repisava uma mesma pergunta; repetia as minhas respostas.
BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1994. p. 63. (Série Bom Livro).

UESC 2010 - 1. Com base no fragmento inserido na obra, está correto o que se afirma na alternativa
01) A mudança de condição de vida de Isaías, quando passa de contínuo a repórter no jornal “O Globo”, provoca uma alteração radical em seus conceitos sobre os outros e sobre si mesmo.
02) O escrivão Isaías Caminha considera os literatos com os quais conviveu,  quando  trabalhou na  redação de um jornal, como modelos a imitar no seu fazer literário.
03) O narrador escreve as suas “Recordações” com o intuito de alcançar a glória literária e, com ela, a ascensão social.
04) O delegado representa a autoridade que, movida pelo preconceito, exerce, de forma arbitrária, o poder.
05) O narrador-personagem, ao descrever o delegado, revela-se imparcial.

[...] Considerei-me feliz no lugar de contínuo da redação do O Globo. Tinha atravessado um grande braço de mar, agarrara-me a um ilhéu e não tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava o horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me e os insetos já se me tinham feito grossa a pele...
De tal maneira é forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois cheguei a ter até orgulho da minha posição. Senti-me muito ma i s   q u e   um  c o n t í n u o   q u a l q u e r,  me smo  ma i s   q u e   um contínuo de ministro. As conversas da redação tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia ministros, demitia diretores, julgava juízes e o presidente. Logo ao amanhecer, lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o placet desejado do doutor Ricardo.
BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. 3. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 99.

UESC 2011 - 2. O texto, articulado com a obra, permite considerar correta a alternativa
01) Isaías Caminha revela-se um ser humano desprovido de qualquer vaidade.
02)  O   n a r r a d o r   u t i l i z a ,   n o   s e u   r e l a t o ,   u m a   l i n g u a g e m essencialmente objetiva e precisa.
03) O narrador atribui tão somente aos outros a não realização de seus projetos de vida.
04) O narrador reconhece, na narrativa, a atuação da imprensa  de seu tempo como marcada pela ética e pelo compromisso com o social.
05) Isaías, através do relato de sua trajetória de vida, mostra o ambiente social como discriminador de pessoas pobres e de negros e mulatos.

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