domingo, 7 de outubro de 2018

Redação Valorização do Idoso - De Ana Dutra 1º Lugar na Bahiana de Medicina


Sobre pedras e humanismo

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Essa premissa enseja uma reflexão: a necessidade de valorização do idoso pelos egressos da área de saúde, de modo a garantir-lhes não somente quantidade de anos vividos, mas principalmente qualidade de vida, consolidando os caminhos para uma medicina multifatorial e humanística.
A Medicina Ocidental, em consenso com o fundamento mecanicista de Descartes, fundamenta a sua máxima na valorização da tecnologia em detrimento do próprio médico. No entanto, apesar dos avanços no conhecimento e habilidades técnico-científicas contribuírem para o prolongamento da vida, o entendimento do toque, acolhimento e cuidado para com o assistido é ainda mais essencial. Nesse sentido, diante da realidade de envelhecimento da população brasileira, consultas mecanizadas, com tempo de atendimento pré-definido, devem ser substituídas por práticas como anamnese e sondagem; hospitais e clínicas que antes mercantilização seus serviços, devem se reconfigurar de modo a garantir um caráter mais acolhedor para os herdeiros de Matusalém. Desse modo, a saúde transcenderá para um olhar “holos” na cura, cuidado ou prevenção.
“É dever de todo médico ter o mínimo que seja de aptidão ética e técnica para intervir na saúde do ser humano”. Partindo desse princípio, os vocacionados para a saúde devem embasar o seu labor na prática de uma medicina complementar, que priorize não somente o uso de fármacos e diagnósticos no cuidado para com os idosos, mas também uma alimentação adequada, atividades físicas, bem como saúde mental e emocional para a manutenção da homeostase psico-física desses indivíduos. Portanto, não basta apenas prolongar a vida, para além disso, cabe ao médico honrar o seu juramento e promover o bem-estar biopsicossocial no tocante ao cuidar.
Destarte, a negligência para com a população idosa configura-se como uma “pedra no caminho” da cidadania. Nessa perspectiva, o resgate de uma medicina hermenêutica, solidária e participativa é a chave para que o método anátomo-clínico não ultrapasse as barreiras da empatia. Assim, é necessária uma ação conjunta por parte do Estado, disponibilizando serviços que visem inserir os anciãos em projetos de socialização, como atividades intelectuais e artísticas em consonância com as Escolas de Saúde, que busquem formar profissionais não somente com o conhecimento tecnobiológico, mas também com consciência social, aliados empaticamente com o paciente. Afinal, além de ciência, Medicina é arte, por isso não há como negar-lhe o humanismo, mesmo que do mais pragmático.
Ana Luiza Dutra

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